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Para especialista, falta envolvimento dos gestores das OSCs com a web

27/5/2009 - Pesquisador do tema das redes sociais, empreendedor social e presidente da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), Marcelo Estraviz desvenda alguns dos mistérios da internet para as gerações de “imigrantes digitais”. Para ele, estar na internet não é luxo, mas necessidade. “Quem não entrar na rede está condenado a morrer de inanição nos próximos anos”, prevê. Confira a íntegra da entrevista concedida ao IDIS.


Que possibilidades as redes sociais on-line oferecem às organizações da sociedade civil (OSCs)?
As ferramentas on-line – e não redes sociais, pois isso é mais complexo – abrem as portas da organização para o mundo. Há dez anos, recomendava às organizações que tivessem seus próprios sites. Hoje, isso é obrigatório. Em relação ao uso dessas ferramentas, ocorrerá o mesmo.Repdorução do Flickr - Marcelo Estraviz, presidente da ABCR

O custo de manutenção de Twitters e blogs é baixo, mas essas ferramentas não têm sido exploradas pelas organizações. Falta conhecimento técnico para o uso desses instrumentos?
Não, falta envolvimento dos gestores com a web, falta sensibilidade e interesse pela web. A geração que está na gestão das instituições hoje não é "nativa digital", que são os nascidos após a década de 80. É, quando muito, uma "imigrante digital", o que faz com que precisem aprender o idioma e os costumes desse universo.

Estratégias de captação de recursos e de divulgação de causas têm ganhado espaço no Twitter. Qual o diferencial desse tipo de ação em relação a panfletagens e campanhas na TV ou no rádio?
Tudo isso ainda é muito incipiente, mas altamente estimulante. Existem algumas pequenas plataformas que estão sendo criadas para uso combinado com o Twitter, como o http://tipjoy.com/, que permite a captação de recursos. No Facebook, existem plataformas específicas de captação de recursos e tenho visto dezenas de apresentações sobre como usar esses instrumentos. Ainda estamos engatinhando, mas em menos de dois anos isso estará consolidado. As vantagens para o Brasil é que somos um país que não tem medo de testar novidades e nos envolvemos com avidez nelas.

O que é essencial para que as OSCs se aventurem nas redes sociais?
O essencial é que isso seja sincero e natural. Não dá pra forçar as coisas na web. Antes de se aventurar nas redes é necessário criar um blog. Ele pode ser da instituição, dos gestores e funcionários, ou das duas coisas. Depois de alguns meses com blog, fica fácil entender as redes, que nada mais são do que um mecanismo mais depurado de conversação. Após o blog, recomendo usar o Twitter, publicar fotos no Flickr, vídeos no Youtube e apresentações no Slideshare. Tudo isso pode ser linkado de um para o outro. Também é importante que os gestores estejam em redes como o Orkut e o Facebook. É preciso frisar, no entanto, que nessas redes os gestores devem se apresentar como pessoas e não como instituições. Assim, podem acompanhar ou criar comunidades que tratem da causa ou da própria instituição.

O que uma organização pode esperar ao se inserir nessas comunidades?
Ela verá sua causa aumentar de importância, pois mais e mais pessoas passarão a defendê-la. Eu digo sempre que captar recursos é antes de tudo buscar e manter aliados. O dinheiro é a consequência. Mas brincando um pouco com o termo "esperar", não se pode esperar nada, tem que interagir e não ficar parado.

Podemos elencar que ferramentas têm mais impacto e, portanto, merecem mais atenção por parte das organizações?
Não trataria essas ferramentas sob o ponto de vista de "o que gera mais impacto" para a instituição. O termo correto seria reputação. Na web, o que se constrói é reputação. Isso tem a ver com a ética hacker, que são aquelas pessoas que colaboram e que fizeram a internet. A colaboração deve ser defendida como um princípio. E quanto mais você doa e disponibiliza, mais reputação você tem. Percebe como isso tem muito a ver com a defesa de causas e das organizações das quais estamos falando?

Reprodução do Flickr - Estraviz aconselha OSCs a criarem blog antes de utilizar redes sociaisQuais as vantagens e desvantagens do Twitter?
Não dá pra compará-lo com outras ferramentas. Cada uma tem sua função específica. O importante a destacar é que o Twitter trouxe um novo elemento. Como são apenas 140 caracteres, faço um bom resumo do que quero dizer. Voltaire dizia “Escrevo-vos uma longa carta porque não tenho tempo de a escrever breve”. O Twitter nos ensina a resumir o que queremos dizer em poucas palavras. Isso é um exercício de sabedoria.

As organizações às vezes criam contas em redes sociais "porque todo mundo está criando", sem planejar estratégias de atualização e de uso desse espaço. Que riscos elas correm ao fazer isso?
O risco é o desprezo. Quem cria uma conta e a abandona ou escreve institucionalidades ganha o desprezo, o silêncio e o abandono. Simples assim. Nós que estamos na rede queremos honestidade, transparência e autenticidade. Não é pedir muito.

Muita gente não entra para as redes sociais on-line porque diz não ter tempo nem recursos humanos para fazer a manutenção de conteúdo. O que fazer quando a organização se depara com esse diagnóstico?
Essas organizações morrerão de inanição. Ponto.

Temos, no Brasil, grandes exemplos de uso dessas ferramentas on-line por parte de organizações sociais?
Nada precisa ser muito grande na web. O tamanho das coisas está relacionado à sua eficiência. Um exemplo fresquinho: o Doutores da Alegria está no Twitter. Eu os sigo. Semana passada, surgiu uma promoção relâmpago deles. Quem "gritasse" que queria ir ao Midtnight Clowns, uma peça de teatro do grupo, no Twitter, participaria do concurso. Eu “gritei”, pois achei divertido. Meu grito foi pra todos os que me seguem. Ganhei a promoção, fui feliz assistir à peça e disse pra todos os que me seguem que adorei. Agora estou dizendo aqui a coisa bacana que o Doutores fez. Viu a repercussão? Viu que coisa pequena, mas ao mesmo tempo de grande impacto?

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